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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sangue, Levítico 17:10 e a Lei Mosaica


Abate kosher, segundo a lei Mosaica.

Lee Elder e Jan Haugland


O próximo conjunto de textos usados pela Sociedade Torre de Vigia em apoio do seu ensino sobre o sangue encontra-se na Lei mosaica e está registado nos livros de Levítico, Deuteronômio e Primeiro Samuel.

Comecemos por lê-los, juntamente com os comentários da Sociedade Torre de Vigia na brochura sobre o sangue:
"'Quanto a qualquer homem da casa de Israel ou algum residente forasteiro que reside no vosso meio, que comer qualquer espécie de sangue, eu certamente porei minha face contra a alma que comer o sangue, e deveras o deceparei dentre seu povo. 11 Pois a alma da carne está no sangue, e eu mesmo o pus para vós sobre o altar para fazer expiação pelas vossas almas, porque é o sangue que faz expiação pela alma [nele]. 12 Foi por isso que eu disse aos filhos de Israel: "Nenhuma alma vossa deve comer sangue e nenhum residente forasteiro que reside no vosso meio deve comer sangue." 13 "'Quanto a qualquer homem dos filhos de Israel ou algum residente forasteiro que reside no vosso meio, que caçando apanhe um animal selvático ou uma ave que se possa comer, neste caso tem de derramar seu sangue e cobri-lo com pó. 14 Pois a alma de todo tipo de carne é seu sangue pela alma nele. Por conseguinte, eu disse aos filhos de Israel: "Não deveis comer o sangue de qualquer tipo de carne, porque a alma de todo tipo de carne é seu sangue. Quem o comer será decepado [da vida]." (Levítico 17:10-14)
Neste ponto é útil analisar como a brochura corrente da Sociedade Torre de Vigia trata estes versículos. Aqui está uma citação direta:
"Ele novamente se referiu ao sangue ao dar a Israel o código da Lei. Ao passo que muitos respeitam a sabedoria e a ética daquele código, poucos estão cônscios de suas sérias leis sobre o sangue. Por exemplo: "Se alguém da casa de Israel, ou dos estrangeiros que residirem entre eles, tomar qualquer sangue, eu porei a Minha face contra a pessoa que toma o sangue, e a cortarei de entre seus parentes. Pois a vida da carne está no sangue." (Levítico 17:10, 11, versão judaica Tanakh) Deus então explicou o que um caçador devia fazer com um animal morto: "Ele deve derramar o seu sangue e cobri-lo de terra.... Não deveis tomar o sangue de carne alguma, pois a vida de toda carne é o seu sangue. Qualquer pessoa que tomar dele será cortada." -- Levítico 17:13, 14, Ta. [...] Ao passo que a lei sobre o sangue tinha aspectos relativos à saúde, havia muito mais envolvido. O sangue tinha um significado simbólico. Representava a vida concedida pelo Criador. As pessoas, ao tratarem o sangue como algo especial, demonstravam que dependiam Dele para viver. Sim, o motivo principal pelo qual elas não deveriam tomar sangue era, não que o sangue era ruim para a saúde, mas que o sangue tinha um significado especial para Deus." (Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida? (1990), pp. 3-4)
Portanto, nestas partes da Lei mosaica encontramos detalhes a respeito do sangue. Este deve ser derramado no chão e qualquer pessoa que o coma deliberadamente será decepada.
Será que estes textos estão a reafirmar e alargar o assim chamado "pacto eterno" encontrado em Gênesis capítulo 9? Conforme já vimos, esse pacto não era eterno, pelo menos não era eterno em todos os aspectos. Além disso, estes mandamentos são claramente uma parte da Lei de Moisés. Isto é muito importante pois os cristãos não estão sob a Lei mosaica.
  • "Porque Cristo é o fim da Lei, para que todo aquele que exercer fé possa ter justiça." (Romanos 10:4)
  • "No entanto, antes de chegar a fé, estávamos sendo guardados debaixo de lei, entregues juntos à detenção, aguardando a fé que estava destinada a ser revelada. 24 A Lei, por conseguinte, tornou-se o nosso tutor, conduzindo a Cristo, para que fôssemos declarados justos devido à fé. 25 Mas agora que chegou a fé, não estamos mais debaixo dum tutor." (Gálatas 3:23-25)
Consequentemente, os textos da Lei de Moisés não têm em si mesmos, ou por si só, qualquer relevância na questão de saber se era apropriado um cristão usar sangue. A Lei mosaica foi pregada na estaca junto com Cristo. Ficou anulada, vazia e sem qualquer força ou efeito. Argumentar em contrário é negar as verdades simples afirmadas claramente ao longo de todos os escritos de Paulo e no Novo Testamento.
"Por meio de sua carne, ele aboliu a inimizade, a Lei de mandamentos, consistindo em decretos [...]" (Efésios 2:15)
A Sociedade Torre de Vigia tem reconhecido isso muitas vezes nos seus escritos:
"Se os seguidores judeus de Jesus não mais estavam sob a maldição da Lei, será que algum cristão se achava sob a obrigação de observar todos os mandamentos dados a Israel? Paulo escreveu aos colossenses: "[Deus] nos perdoou bondosamente todas as nossas falhas e apagou o documento manuscrito que era contra nós, que consistia em decretos e que estava em oposição a nós; e Ele o tirou do caminho por pregá-lo na estaca de tortura [de Cristo]." (Colossenses 2:13, 14) Não há dúvida de que muitos cristãos primitivos precisavam ajustar seu modo de pensar e reconhecer que tinham sido "exonerados da Lei". (Romanos 7:6)" (A Sentinela, 15 de novembro de 1989, p. 5, itálico nosso)
Apesar disto, a Sociedade Torre de Vigia acha apropriado citar essas leis defuntas para apoiar a sua política sobre o sangue. À medida que avançamos na leitura da brochura, deparamo-nos com um exemplo particularmente flagrante de atribuir aos textos bíblicos um sentido que pura e simplesmente não está lá:
"A Lei repetidas vezes declarava a proscrição do Criador a se tomar sangue para sustentar a vida. "Não o deves comer [i.e., o sangue]. Derrama-o na terra, como água. Não o comas, para seres feliz com teus filhos, fazendo o que é reto." -- Deuteronômio 12:23-25, Bíblia Vozes; Deut. 15:23; Levítico 7:26, 27; Ezequiel 33:25." (Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida? (1990), p. 4, itálico nosso)
Será que a Lei mosaica realmente declara a proscrição do Criador dessa forma? Com certeza que não. Em nenhum lado lemos sobre "a proscrição do Criador a se tomar sangue parasustentar a vida." O que lemos é que o Criador proscreve "comer" sangue. Esta é uma diferença subtil mas importante.
Existem muitas coisas que fazemos para sustentar a vida: respirar oxigênio, beber água, servir-nos de alimento, dormir e assim por diante.
Está claramente estabelecido que, de uma perspectiva médica ou científica, receber uma transfusão de sangue não é o mesmo que comer sangue. Por isso, a Sociedade Torre de Vigia sente necessidade de encontrar alguma maneira de ligar as duas coisas. Ela faz isso ao argumentar que quando a Bíblia diz para não "comer sangue", o que isto realmente quer dizer é não sustentar a vida com sangue. Claramente, não é isto o que os textos dizem.
Consideremos o parágrafo seguinte da brochura:
"Contrário ao raciocínio de alguns hoje, a lei de Deus sobre o sangue não deveria ser desconsiderada numa emergência. Alguns soldados israelitas, em certa crise de tempo de guerra, mataram animais e 'foram comê-los junto com o sangue'. Tratando-se duma emergência, era-lhes permissível sustentar a vida com sangue? Não. Seu comandante indicou-lhes que seu proceder ainda constituía um grave erro. (1 Samuel 14:31-35) Assim sendo, por mais preciosa que seja a vida, nosso Dador da Vida jamais disse que suas normas poderiam ser desconsideradas em caso de emergência." (Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida? (1990), p. 4, itálico nosso)
Agora, honestamente, será que é razoável referir-se a um grupo de soldados esfomeados como uma "emergência", ou é isso uma tentativa desastrada para associar o relato com as modernas emergências médicas que requerem transfusões de sangue? Qual de nós iria igualar uma crise médica de vida ou morte com um bando de guerreiros esfomeados?
Também vale a pena sublinhar mais uma vez o uso da expressão "sustentar" como substituto para a palavra "comer". Isso é uma manipulação deliberada do relato bíblico. É uma tentativa de fazê-lo dizer algo que ele não diz.
Por outro lado, o que esta história bíblica nos ensina é muito interessante. Repare no que aconteceu a estes soldados esfomeados que, numa "emergência", decidiram "sustentar a vida"comendo carne "junto com o sangue":
"Depois, Saul disse: "Espalhai-vos entre o povo, e tendes de dizer-lhes: 'Trazei a mim, cada um de vós, seu touro e, cada um, seu ovídeo, e tendes de fazer o abate neste lugar, bem como o comer, e não deveis pecar contra Jeová por comer junto o sangue.'" Por conseguinte, todo o povo trouxe perto, cada um, seu touro que se achava na sua mão, naquela noite, e fizeram o abate ali. 35 E Saul passou a construir um altar a Jeová. Com isso principiou a construir um altar a Jeová." (1 Samuel 14:34-35)
Apesar de a Lei mosaica exigir a morte de alguém que deliberadamente comesse sangue, a conseqüência do pecado grave destes soldados israelitas foi uma reprimenda verbal. No entanto, se uma Testemunha de Jeová hoje tiver uma emergência médica e aceitar uma transfusão de sangue, com toda a probabilidade será sancionada pela Sociedade Torre de Vigia e ser-lhe-á negado um relacionamento normal com os seus amigos Testemunhas de Jeová e membros da família. As suas ações serão vistas como um pecado grave merecedor da morte e expulsão da congregação.
O sangue estava no centro da Lei mosaica, com o seu sistema de sacrifícios animais, e tinha grande significado na vida de um israelita, visto que o derramamento de sangue podia expiar temporariamente o pecado. Claramente, nesse contexto o sangue era sagrado. Ao derramá-lo no chão e cobri-lo com terra, um caçador israelita mostrava o seu respeito pela vida que tinha tirado com permissão divina. Adicionalmente, um animal devidamente sangrado estaria mesmo morto e o caçador estaria em conformidade com o mandamento encontrado em Gênesis 9:4 que, conforme vimos, essencialmente significava que não se devia comer o animal quando este ainda estava vivo. Por fim, ao não comer o sangue, o israelita mostrava o seu apreço pelo significado do sangue usado no arranjo de sacrifícios animais do templo.
Vale a pena ler os capítulos 17 e 18 de Levítico para apreciar o contexto em que estas proibições ocorrem. Uma análise cuidadosa é reveladora. Por exemplo, o leitor talvez fique surpreendido ao ver quão preciosa é toda a vida para Deus. Se um israelita, ao matar um animal doméstico, não o trouxesse ao sacerdote para que o sangue fosse aspergido sobre o altar, ele tinha culpa de sangue e merecia a morte, exatamente como se tivesse morto outro humano! (Levítico 17:3-6)
Os requisitos eram muito mais simples quando envolviam animais selvagens e a caça, embora o sangue ainda tivesse de ser derramado no chão. (Levítico 17:13) Os requisitos mais estritos envolvendo um animal doméstico provavelmente ficam a dever-se ao seu uso como sacrifício de participação em comum envolvendo o adorador, o sacerdote e Jeová.
Uma pergunta lógica neste ponto seria: "Qual é o significado do sangue?" Há alguma coisa especial nele, alguma propriedade mágica?
A pergunta pode ser respondida se considerarmos o que a lei tinha a dizer sobre animais que morriam de causas naturais ou talvez mortos por um predador:
"Quanto a qualquer alma que comer um corpo [já] morto ou algo dilacerado por uma fera, quer seja natural quer residente forasteiro, neste caso terá de lavar suas vestes e banhar-se em água, e ele terá de ser impuro até à noitinha; e ele terá de ser limpo. 16 Mas, se não as lavar e se não banhar sua carne, então terá de responder pelo seu erro." (Levítico 17:15-16)
Podemos facilmente imaginar uma situação em que um israelita se encontrasse perdido, ou forçado pelas circunstâncias a permanecer num local, e sem comida. Se ele encontrasse um animal morto, claro que perceberia que o animal não tinha sido devidamente sangrado. A lei permitia-lhe comer este animal conforme providenciado no texto, desde que ele seguisse o que é claramente um ritual do código da lei. Se Deus estava disposto a permitir que um israelita comesse sangue sob estas circunstâncias, não estaria ele disposto a permitir que alguém aceitasse uma transfusão de sangue para preservar a vida numa emergência médica? É razoável assumir que sim.
Além disso, encontramos disposições adicionais na Lei a respeito de residentes forasteiros e de comer sangue de animais não sangrados:
"Não deveis comer nenhum corpo [já] morto. Podes dá-lo ao residente forasteiro que está dentro dos teus portões, e ele tem de comê-lo; ou pode ser vendido a um estrangeiro, porque és um povo santo para Jeová, teu Deus." (Deuteronômio 14:21)
Note que a razão apresentada para não comer o corpo morto é que os israelitas são um "povo santo". Não é o sangue ou a sua santidade que está em causa. Isto é claro pois Deus não se importa que não-judeus comam a carne com o sangue nela.
Se raciocinarmos sobre tudo isto, torna-se evidente que o sangue em si mesmo não era sagrado. Não possui propriedades mágicas. O sangue que corre pelas veias de uma criatura viva representa a vida e se alguém tirava uma vida tinha de derramar o sangue no chão, devolvendo-a a Deus. No caso de um animal que morria por si mesmo, nenhum humano tinha tirado uma vida, e este requisito podia ser posto de lado. O único assunto envolvido era a limpeza cerimonial.
É importante notar que a proibição contra comer sangue de um animal não teria resultado na morte de um homem ou mulher devotos. De fato, muitas vezes argumenta-se que o objetivo destas observâncias, em parte, era proteger a saúde dos crentes. Mas se essa proibição for aplicada a um procedimento médico, resulta freqüentemente no sofrimento e morte de Testemunhas de Jeová. Tal conseqüência é suficiente para mostrar que esta extensão adicional da proibição contra comer sangue não faz parte das intenções da Lei mosaica. Vale a pena notar que nenhum grupo de judeus aplica estas sanções ao uso médico do sangue, nem mesmo os judeus mais ortodoxos que estão sempre tão preocupados em não desagradar a Deus.

Ao concluirmos a nossa análise desta seção da Bíblia, estabelecemos o seguinte:
  • A Lei mosaica não é vinculativa para os cristãos. Isto é reconhecido pelas escrituras e pela Sociedade Torre de Vigia.
  • A Lei mosaica proíbe que se coma sangue de forma deliberada. A Lei nada diz sobre usar sangue para "sustentar a vida".
  • A Lei mosaica descreve situações em que uma pessoa podia indiretamente comer sangue sob certas circunstâncias.
  • O sangue não possui propriedades místicas. Se um israelita matava um animal, tinha de derramar o sangue no chão em reconhecimento de que tinha tirado uma vida com permissão divina e estava a devolvê-la a Deus.
Antes de avançarmos para a análise do último texto usado pelas Testemunhas de Jeová, em Atos dos Apóstolos, é importante tomarmos nota da ordem pela qual as proibições ocorrem no livro de Levítico, pois isto vai ser essencial para entendermos a próxima seção em Atos capítulo 15:
1.º Sacrifícios de participação em comum (ofertas de alimento) deviam ser feitos apenas a Jeová Deus (Levítico 17:1-9).
2.º Comer sangue de forma deliberada e intencional era proibido (Levítico 17:10-14).
3.º Só numa situação excepcional é que um animal que tinha morrido por si mesmo ou sido dilacerado por uma fera podia ser consumido (Levítico 17:15-16; veja também Deuteronômio 14:21, 28-29).
4.º Eles não se podiam envolver em atos sexuais imorais ou relações incestuosas (Levítico 18:1-27).

sábado, 9 de junho de 2012

Uma Análise da Sentinela de 15/6/2004 Sobre o Sangue



(5 de Junho de 2004, por Paulo Franco)

Alguns pontos positivos e alguns negativos nesse novo artigo na Sentinela de 15/6/04. Comecemos pelos positivos:

1) Artigos de estudo
Por serem artigos de estudo, as TJs vão ler e re-ler e, portanto, há uma possibilidade de que vejam quão pouco sentido isso faz e podem inclusive perceber alguns dos pontos que menciono abaixo na seção Observações.

2) Gráfico na página 22
Apesar de incompleto, este gráfico é um dos melhores já publicados mostrando o que a Sociedade não aceita e o que é “questão de consciência”.

3) Abandono do argumento “bebê na placenta”?
Já faz algum tempo que a Sociedade não usa esse argumento (veja seção abaixo O argumento “bebê na placenta”). Parece que a Sociedade o abandonou de vez, o que é algo positivo, uma vez que nós não podemos tomar decisões baseadas no uso que Jeová faz do sangue.


Observações


1) A Sociedade mistura duas coisas que são totalmente independentes: o sangue de Cristo e as transfusões de sangue

Essas são duas coisas totalmente distintas. O cristão sabe que o sangue de Cristo o salva (ou resgata) do pecado adâmico, diferente de uma transfusão de sangue, que apenas evita uma morte prematura, desnecessária. Por saber disso claramente, o cristão, ao se utilizar desse recurso médico, não tem a menor intenção de usá-lo como substituto para o sangue de Cristo, mas a Sociedade insiste em confundir e misturar as coisas. E o pior é que ela sabe do uso simbólico, figurativo, que a Bíblia faz da expressão “sangue de Cristo”, ou “sangue do Cordeiro”. (ver última frase do par.18, pág.18).

2) No passado foi o "Corpo Governante"; agora são "alguns cristãos".
Uma outra coisa que fica visível no artigo é que, quando a Sociedade fala da proibição de comer sangue para os cristãos do primeiro século ela diz claramente que foi uma decisão do Corpo Governante (veja pág.20, par.6, 7; pág.21,par.9 para exemplos disso), mas quando ela fala da proibição de transfusões de sangue hoje ela não diz de forma alguma que trata-se de uma proibição do “Corpo Governante” lá em Brooklyn. Veja abaixo como ela fraseia a questão, revelando claramente que esses artigos são revistos por advogados para não implicar legalmente a Sociedade nessa questão potencialmente explosiva.

"Como o cristão deve reagir? Ele tomou a firme decisão de nunca aceitar uma transfusão de sangue..." – pág.21, par.10

"Há décadas, as Testemunhas de Jeová deixaram clara a sua posição." – pág.21, par.11

"Portanto, em harmonia com os fatos da medicina, as Testemunhas recusam a transfusão de sangue total ou de qualquer dos seus quatro componentes primários." – pág.22, par.11

"as Testemunhas de Jeová, conforme mencionado nos parágrafos 11 e 12, não aceitam transfusões de sangue total, nem dos seus quatro componentes primários..." – pág.23, par.16

3) "Alguns chegaram a conclusão de que...”
Essa talvez seja a frase mais fantástica e absurda de todo o artigo. E talvez a mais fácil de uma TJ típica perceber toda a falácia do sangue.

"Alguns chegaram a conclusão de que essas pequenas frações, na realidade, não são mais sangue e por isso não estão incluídas na ordem de 'abster-se de sangue'”. - pág.23, par.16

Ou seja, não foi a Sociedade quem liberou as frações do sangue?!!! Foram “alguns” que liberaram o seu uso e a Sociedade está apenas comunicando os demais 6.5 milhões de TJs que, por isso, está liberado? Por favor, parem com isso!

4) A expressão ‘o cristão deve tomar a sua própria decisão’
Eu acho muito interessante a expressão “o cristão deve tomar a sua própria decisão”, ao invés da mais natural e apropriada expressão “o cristão pode tomar a sua própria decisão”. Veja um exemplo:

"O CRISTÃO DEVE DECIDIR”, box na pág.22

É desonesto o uso da expressão “o cristão deve...” porquê dá-se a impressão de que foram os “cristãos” que criaram toda essa regulamentação relacionada ao sangue e agora querem que a Sociedade decida por eles o que é certo e o que é errado quando, na verdade, nós sabemos que foi a Sociedade quem criou e fomentou todas essas regras do que pode/não pode em relação ao sangue.
É como se a Sociedade estivesse dizendo: “Escutem, irmãos, vocês não são maduros o suficiente para decidir sobre isso? Parem de pedir que tomemos decisões por vocês”. Quão desonesto!

5) "Cabe a eles a responsabilidade pela decisão" - pág.23, par.16
Esta frase é muito parecida com aquela ‘o cristão deve tomar a sua própria decisão’ (ver ponto 4 acima). Ou seja, primeiro a Sociedade cria a doutrina-confusão do sangue e depois diz que a responsabilidade pela decisão está com o rebanho.

6) Impressão de que nada mudou; trata-se de posição de longa data

Observe este trecho:

"Há décadas, as Testemunhas de Jeová deixaram clara a sua posição." – pág.21, par.11

A Sociedade tenta dá a impressão de que a doutrina do sangue é sólida, estável; de que nada mudou; são posições de longa data. Contudo, se você pesquisar o assunto, vai ver que a Sociedade vêm fazendo vários ajustes nessa doutrina aqui e acolá ao longo dos anos.

7) Situações absurdas
O parágrafo 14, página 23, apresenta uma série de situações absurdas e a Sociedade as compara com as "dúvidas" que os "verdadeiros cristãos" talvez tenham quanto a se devem ou não aceitar uma fração de sangue. Talvez a mais engraçada dessas situações é essa aqui, veja:

“Era necessário pendurar a ovelha pelas pernas traseiras? Por quanto tempo? O que faria no caso duma vaca?”

8) Permita-nos adestrar a sua consciência

A Sociedade diz, sem dizer exatamente; libera, mas impõe restrições; afaga a sua consciência aqui, mas bota um pouquinho de culpa ali. Essa questão do sangue é tão importante doutrinariamente para uma TJ que a Sociedade vai a extremos para liberar sem dizer que está liberando. Analise este trecho:

"Além disso, alguns produtos derivados de um dos quatro componentes primários podem desempenhar uma função tão similar a do componente primário e ter a mesma capacidade de sustentar a vida, que a maioria dos cristãos os condideraria objetáveis." – pág.24, par.16

Não entendi! Por qual outro motivo uma pessoa tomaria uma transfusão de sangue, senão para “sustentar a vida”, evitando uma morte prematura e desnecessária?

O argumento “bebê na placenta”
“A seção “Perguntas dos Leitores”, publicada em A Sentinela de 1.° de junho de 1990, observou que as proteínas do plasma (frações) passam do sangue da gestante para o sistema sanguíneo, separado, do feto. Portanto, a mãe passa imunoglobulinas para o filho, fornecendo-lhe imunidade valiosa. Separadamente, à medida que os glóbulos vermelhos do feto completam seu período normal de vida, o componente que transporta oxigênio é processado. Parte dele se transforma em bilirrubina, que passa para a mãe, atravessando a placenta, e é eliminada junto com os dejetos do corpo dela. Alguns cristãos podem concluir que visto que frações de sangue podem passar para outra pessoa neste ambiente natural, eles poderiam aceitar uma fração de sangue derivada de plasma ou de glóbulos sanguíneos.” – A Sentinela 15/6/2000, pág.30

Ou seja...

... Esse é aquele tipo de situação onde a Sociedade gasta 2 artigos e 39 parágrafos para dizer algo que poderia muito bem ser dito em apenas 2 ou 3 parágrafos, uma que vez que esses dois artigos resume-se a basicamente o seguinte: "irmãos, embora nós não aceitamos transfusão de sangue integral, aceitamos todos os componentes secundários do sangue (albumina, imunoglobina, Fator VIII, Factor IX) além de frações dos componentes primários. Apenas lembramos que aceitar esses componentes e frações é muito objetável para alguns irmãos; portanto faça esforço para evitar aceitá-los se isso for perturbar a consciência de outros."

Em resumo, esses dois artigos de A Sentinela tem os seguines ingredientes: muita mistura de assuntos não-relacionados para fazer volume e confundir, um pouco de "se vira, que você já é bem grandinho", um bocado de auto-elogio e auto-recomendação, um pouco de sentimento de culpa sobre a sua consciência, e bastante fraseologia esperta para não comprometer o Corpo Governante lá de Brooklyn. Tudo mexido muito bem e... pronto. Agora é só esperar a próxima vítima sofrer uma morte desnecessária e evitável. Simplesmente lamentável!

As Testemunhas de Jeová Realmente Abstêm-se de Sangue?





Por Carlos M. Silva
(29 de outubro de 2003)

“As Testemunhas de Jeová prezam a vida e a consideram uma dádiva de Deus. Em harmonia com Atos 15:29, elas se abstêm de sangue.” –  Anuário das Testemunhas de Jeová, 2002, pág. 111
A declaração acima, apesar de paradoxal, representa o conceito comum que as pessoas têm sobre as Testemunhas de Jeová. Não há dúvida que há na Bíblia uma lei sobre a abstenção de sangue, mas o que dizer dos critérios que a Sociedade Torre de Vigia dos EUA – entidade dirigente das Testemunhas de Jeová  – adota sobre essa lei?

Componentes do sangue que são permitidos
Como talvez saiba, ao contrário de antigamente, hoje a Torre de Vigia deixa a cargo da consciência dos adeptos aceitar ou não certas frações derivadas de sangue. Essas frações são obtidas através de um processo chamado fracionamento. Alguns derivados do plasma são:

· Concentrado de Fator VIII
· Concentrado de Fator IX
· Complexo de Anti-Inibição de Coagulação (AICC)
· Albumina
· Imunoglobulinas
· Concentrado de Anti-Trombina III
· Concentrado de Inibição Alfa 1-Proteinase
Às vezes argumenta-se que os componentes do sangue permitidos pela Sociedade Torre de Vigia dos EUA são frações do sangue muito pequenas, e por isso podem ser usadas (A Torre de Vigia não costuma usar termos tais como “proibimos isso ou aquilo”. Ela diz que essa ou aquela decisão depende da consciência do cristão. Mas isso é uma falsa colocação, pois se ela proibir alguma coisa, não importa se sua consciência permita ou não tal coisa – nem que a Sociedade acabe adquirindo a mesma opinião que você já tem! [há casos assim]. Ou seja, quem manda mesmo é a Torre, e não a consciência de seus adeptos. Portanto, quando se usam, neste texto, expressões tais como “a Sociedade proibia”, ou “A Torre de Vigia não permite”, elas estão em perfeito acordo com a realidade). Mas tome como exemplo a albumina, que é um componente do sangue permitido pela Sociedade. Sabe a porcentagem que ela ocupa no sangue? Cerca de 2,2%. Esta porcentagem é muito maior do que a porcentagem dos componentes que a Sociedade proíbe, como os glóbulos brancos (1%) e as plaquetas (0,17%). Qual é a lógica que permite 2,2%, mas proíbe 0,17%? Então, fica claro que o que determina esse critério de proibição não é o fato de uma substância sangüínea ser ou não ser bem pequena.
A Sociedade ensina que os componentes do sangue permitidos estão apenas limitados àqueles que passam através da barreira da placenta durante a gravidez e que, baseando-se nisto, uma Testemunha pode aceitá-los de consciência tranqüila. Raciocina-se que se Jeová permite que estes componentes sangüíneos passem da mãe para o feto, é sinal de que Ele não está violando a sua própria lei. Isso até que tem lógica, mas o problema é que a ciência médica está descobrindo que praticamente todos os componentes do sangue passam através da barreira da placenta.
Existem também vacinas e remédios que são feitos à base de sangue, que a Sociedade também os permite. Sabe como se obtém os remédios à base de sangue permitidos? Observe:
· Albumina: para se obter 600 gramas de albumina é preciso uns 45 litros de sangue que não foi ‘derramado no solo’, conforme a orientação bíblica, mas sim armazenado. (a albumina é usada para tratar queimaduras graves).
· Imunoglobulina: é dessa substância que se faz a vacina contra a cólera e muitas Testemunhas de Jeová já foram vacinadas com ela. Para se fabricar uma única injeção é preciso 3 litros de sangue. Este sangue, mais uma vez, é doado, armazenado e processado para produzir os produtos sangüíneos aprovados pela Sociedade Torre de Vigia dos EUA.
· Crioprecipitado Anti-Hemofílico AHF: é a porção do plasma que é rica em certos fatores coagulantes, incluindo Fator VIII, fibrinogênio, Fator von Willebrand e Fator XIII. O AHF é removido do plasma através de congelação e depois descongelação lenta do plasma. (É usado para prevenir ou controlar hemorragias em indivíduos com hemofilia tipo A, doença de von Willebrand, e anomalias hereditárias na coagulação).
· Preparados hemofílicos (Fator VIII e IX): o tratamento eficaz para um hemofílico requer uma substância chamada Fator VIII, que ajuda na coagulação e é feita a partir do sangue retirado de muitos indivíduos. São necessários cerca de 9000 Kg de sangue total para produzir uma única dose de 0,1 grama de Fator VIII. Uma pessoa que sofra de hemofilia grave necessita normalmente de várias doses por ano.
Além dos itens descritos acima, há outros remédios derivados do sangue que são permitidos pela Torre de Vigia: imunoglobulina da hepatite B [HBIG] (usada para tratar e prevenir a hepatite B), imunoglobulina do tétano (injeção contra o tétano), imunoglobulina da Raiva [RIG](usada para tratar e prevenir raiva), imunoglobulina RhO [RhoGam](administrada a mães Rh negativo para prevenir doença hemolítica do recém nascido), anti-trombina III (usada para tratar deficiência na anti-trombina III), e imunoglobulina humana [HIG] (usada para tratar e prevenir, dentre outras coisas, a hepatite tipo A).
É lógico pensar que aceitar essas substâncias significa aceitar parcialmente o sangue. Talvez seja por isso que o órgão dirigente das Testemunhas de Jeová vez ou outra use a expressão “o mal uso do sangue” (A Sentinela, 15/06/91, p. 15, § 9). Ora, se o sangue for derramado no solo, ele não terá nenhuma utilidade; não se fará nenhum uso dele.Então, quer dizer que o sangue pode ter outra finalidade, além de ser ‘derramado no solo’? Pelo visto, fabricar remédios a partir do sangue é um ‘bom uso dele’, contrariando a opinião oficial da Torre de Vigia de que todo sangue que sai do corpo deve ser ‘derramado no solo’, conforme a Lei mosaica.

Relato de um suposto tratamento sem sangue
Uma evidência de que a Torre aprova o uso parcial do sangue, se encontra na Despertai! de 22 de outubro de 1992, p. 12, no artigo “Tratamento sem sangue salvou-me da morte iminente”, onde relata o caso de um membro da sede mundial das Testemunhas de Jeová. Ele conta que um médico da Filial da Torre de Vigia lhe administrou eritropoietina (EPO) que, segundo o narrador, é “um hormônio sintético que estimula a medula óssea a produzir glóbulos vermelhos em ritmo acelerado” (p. 13, § 1). Sabe como se obtém a EPO? A descrição “hormônio sintético” deixa a impressão de que não se trata de algo relacionado com o sangue, talvez por isso muitas Testemunhas de Jeová a utilizem. No entanto, note o que a própria Torre de Vigia diz sobre a EPO:
“Atualmente, usa-se também uma pequena quantidade de albumina em injeções do hormônio sintético EPO (eritropoetina).” – A Sentinela, 1º de outubro de 1994. p. 31.
O estimulante de glóbulos vermelhos EPO mencionado pela Torre de Vigia é feito com uso da proteína sangüínea conhecida como albumina, que é sintetizada a partir de sangue que não foi ‘derramado no solo’, e sim coletado, armazenado e processado. Portanto, o título correto da Despertai! citada acima deveria ser: “Tratamento quase sem sangue salvou-me da morte iminente”.
Quando a EPO começou a ser utilizada, todos os laboratórios que fabricavam a eritropoetina sintética usavam albumina na sua composição. Hoje em dia, porém, certo laboratório afirma que está produzindo EPO sem o uso de albumina (atualmente é o mais utilizado por Testemunhas de Jeová aqui no Brasil). Interessante que a imprensa internacional divulgou recentemente que a EPO desse laboratório está causando certos problemas imunológicos em alguns pacientes, versão que foi rechaçada tanto pelo laboratório como por alguns profissionais de saúde. Não há informação se o suposto problema tem haver com a ausência de albumina. Portanto, não se pode afirmar aqui que as duas coisas tenham relação entre si, nem que o problema realmente existe. De qualquer maneira o ponto importante a salientar é que a Torre aprova o uso da EPO, mesmo ela sendo feita com albumina.
Da mesma forma que alguns medicamentos hoje disponíveis de fatores VIII e IX (preparados hemofílicos), a EPO é produzida através de técnicas de engenharia genética. Na primeira menção que a Sociedade fez da EPO ela não deixou claro a sua forma de obtenção, apenas disse: “Recentemente foi aprovada, para uso limitado, uma promissora droga medicamentosa chamada eritropoietina recombinante. Ela acelera a produção de hemácias pelo próprio corpo, ajudando efetivamente a pessoa a produzir mais do seu próprio sangue.” (Despertai!, 22/10/1990, p. 13. Vide também a brochura Como Pode o Sangue Salvar sua Vida, p. 15). O termo recombinante se origina da idéia de recombinar geneticamente o DNA de certas substâncias gerando proteínas que permitam alcançar os mesmos efeitos que suas correspondentes naturais. Em outras palavras, é reproduzir artificialmente o que natureza produz. No que se refere à albumina sintética (EPO), a albumina humana é utilizada para estabilizar o preparado. O motivo de haver grande interesse em se fabricar proteínas sintéticas é que as correspondentes naturais não podem ser produzidas em grande quantidade, pois elas representam uma pequena fração do sangue total. Em virtude dessas técnicas de engenharia genética, muitos sonham de uma dia haver um sangue totalmente artificial.
Ainda sobre os preparados hemofílicos, a Associação da Torre de Vigia (denominação brasileira) sabe muito bem que para obtê-los é preciso muito sangue, e mesmo assim os aprova:
“Cada lote de Fator VIII é fabricado do plasma coletado de até 2.500 doadores de sangue.” (A Sentinela, 1.º de outubro de 1985, p. 23. Veja também a Despertai!, 8 de outubro de 1988, p. 11).
Muitas pessoas esclarecidas que não são Testemunhas de Jeová, mas que conhecem o ensino das Testemunhas, têm chamado a atenção da Torre de Vigia sobre a posição embaraçosa dela permitir o uso separado de todos os componentes que foram aqui citados, mas proibi-los juntos. Se pegarmos todos esses componentes, juntá-los e adicionarmos água, o resultado será o plasma, que é proibido pela Torre. É como disse certo comentarista, especializado no ensino das Testemunhas de Jeová: “Faria sentido proibir alguém de comer um sanduíche, mas permitir que ele o abra e coma todas as partes separadamente?” (carne, alface, maionese etc.). Em qual base se determina esses critérios de proibição? Certamente, não é na Bíblia, pois ela não aborda tais assuntos.

O aleitamento materno e os leucócitos

Como já foi dito, a Torre de Vigia simplesmente se baseia num conceito já ultrapassado de que só alguns componentes do sangue passam pela barreira da placenta e chegam até o bebê que está na barriga de uma gestante. Mesmo que esse conceito científico fosse o correto, e já não tivesse sofrido atualização, o que determina que ele deva ser utilizado pelo cristão? Mais contundente do que a barreira da placenta, porém, é o mecanismo de aleitamento materno.
Pouco depois do nascimento de uma criança, aproximadamente no segundo dia depois do parto, uma substância chamada colostro, um soro branco, é produzido pela mãe e transmitido ao bebê através da amamentação. Segundo os especialistas “a secreção do colostro continua durante cerca de uma semana, com uma conversão gradual para leite maduro”. Dentro do colostro e no leite humano há anticorpos, imunoglobulinas e outros elementos que são transmitidos à criança para que ela desenvolva resistência à doenças, tais como componentes de complemento, macrófagos, linfócitos, lactoferrina, lactoperoxidase, dentre outros. Macrófagos, também chamados de monócitos, são células do sistema reticuloendotelial que se movem no corpo e ingerem, por fagocitose, microorganismos, células mortas e outros resíduos. Os monócitos são os mesmos glóbulos brancos encontrados no sangue, também chamados de leucócitos. Existem outros tipos de glóbulos brancos, são eles: eosinófilos, linfósitos, neutrófilos e basófilos. Resumindo, dentro do leite humano há substâncias sangüíneas, substâncias estas terminantemente proibidas pela Torre de Vigia! – Conceitos de Biologia, de Amabis e Martho, Ed. Moderna, Vol. 2, pp. 287, 292; Pelos caminhos do Sangue, de Rogério Nigro, Ed. Atual, p. 34.
O leite materno contém mais leucócitos do que se pode encontrar em uma quantidade equivalente de sangue. O sangue contém cerca de 4.000 a 11.000 leucócitos por milímetro cúbico, enquanto o leite de uma mãe pode conter, durante os primeiros meses de aleitamento, até 50.000 leucócitos por milímetro cúbico. Isto é de cinco a doze vezes mais do que a quantidade presente no sangue! Lembre-se que a Torre não aprova o uso de leucócitos.
No aleitamento não está envolvida uma transfusão de sangue. A criança é alimentada por via oral com leite que contém substâncias sangüíneas. Ao se recorrer ao tipo de analogia que a própria Torre de Vigia faz, nota-se que Deus não está infringindo a sua própria lei por ter feito o homem um mamífero, que suga para dentro do estômago, nos primeiros meses de vida, alguns elementos do sangue materno junto com o leite, tais como os leucócitos. Portanto, se comer leucócitos não é pecado, por que transfundi-lo seria?
Consegue perceber que um padrão de entendimento está começando a surgir? Por que Jeová criou o corpo humano de uma forma que aparentemente faz com que sua lei não seja respeitada? Ou seria porque a Torre de Vigia não está entendendo essa lei corretamente? Segundo ela, uma transfusão é o mesmo que comer sangue, e é essa equivalência que gerou a proibição:
“Abster-se do sangue na nutrição do corpo é tão necessário como abster-se da fornicação e da idolatria.” – A Sentinela, 15/03/86, p. 18, § 11.
“Toda vez que se menciona a proibição de sangue nas escrituras é com relação a tomá-lo como alimento, e assim, é como nutriente que nos interessa a sua proibição.”– A Sentinela, 1/02/59, pp. 95 e 96 (Vide CD-ROM Biblioteca da Torre de Vigia, em inglês).
Por volta de 1960, a Torre de Vigia aprendeu que o sangue transfundido não é digerido, mas é retido no corpo de forma muito semelhante a um órgão transplantado. (Comer sangue envolve o sistema digestivo, e recebê-lo por transfusão envolve o sistema cardiovascular). Mesmo com esse entendimento, a proibição das transfusões foi mantida, mas foram sendo permitidos cada vez mais produtos sangüíneos, se tomados separadamente. Se receber sangue é um pecado semelhante à fornicação, como é que a Torre admite a pessoa receber apenas uma parte desse sangue? Já ouviu falar que só um pouco de fornicação é aceitável? Não existe meio termo, ou algo é pecado ou não é. Admitir o uso parcial do sangue entra em conflito com a suposta posição adotada de “se abster de sangue”.
Descrevendo de forma simplificada, para conseguir obter nutrição a partir do sangue, seria necessário comê-lo e digeri-lo, para poder decompô-lo e usá-lo como alimento. Não há benefício nutritivo de uma transfusão de sangue. A Torre de Vigia tem tentado contornar este fato argumentando que receber uma transfusão não é diferente de ser alimentado intravenosamente com dextrose ou álcool. Tais comparações são questionáveis, pois o açúcar e o álcool podem realmente ser usados pelo corpo como alimento, sem digestão. O sangue transfundido não pode ser usado pelo corpo como alimento, da mesma forma que um coração transplantado não pode ser usado como alimento.
Considere dois pacientes que estão incapacitados de comer, e dão entrada num hospital. Se durante vários dias, a um deles for aplicadas transfusões de sangue e ao outro for dada alimentação pela veia, qual deles estará se alimentando e sobreviverá? Logicamente, o que receber a transfusão não viverá; morrerá de fome! É por isso que os médicos não aplicam transfusões de sangue para tratar a desnutrição. A transfusão é administrada para substituir algo que o corpo perdeu, geralmente os glóbulos vermelhos que são necessários para transportar oxigênio e manter a pessoa viva.
Como transfusão de sangue não é o equivalente a comer sangue, perde-se o “elo crítico” que seria necessário para apoiar biblicamente a posição da Sociedade Torre de Vigia a respeito do sangue.

A dúvida que afetou a vida de pessoas
“Embora este médico argumente a favor do uso de certas frações do sangue, particularmente albumina, estas também estão sob a proibição das Escrituras.” (Despertai!, 8 de setembro de 1956, p. 20 [em inglês]).
Estão sob “proibição das Escrituras” ou proibição da Torre de Vigia?
Como pode perceber, o que a Torre hoje permite [albumina], antes ela proibia. Embora se trate de um assunto que envolva vidas humanas, ela evidenciou, ao longo dos anos, que não tem certeza dos detalhes restritivos que ensina. Mesmo assim ela gosta de brincar de ser Deus afetando a vida dos outros. As frações sangüíneas eram proibidas, depois foram permitidas, depois foram proibidas novamente, e depois foram outra vez permitidas:
1) Despertai!, 1º de fevereiro de 1956, p. 20: frações proibidas.
2) A Sentinela, 1º de fevereiro de 1959, pp. 95 e 96: frações permitidas.
3) A Sentinela, 15 de março de 1962, p. 174, §§ 16, 19: frações proibidas.
4) A Sentinela, 15 de julho de 1963, p. 443: frações proibidas.
5) A Sentinela, 15 de outubro de 1974, p. 640: frações permitidas.
6) A Sentinela, 1º de dezembro de 1978, p. 31: frações permitidas.
Se você pesquisar as publicações antigas da Sociedade Torre de Vigia, notará que posições vacilantes também foram adotadas sobre os transplantes de órgãos e as vacinas. Considerava-se transplante de órgãos o mesmo que canibalismo, por causa da mesma linha de raciocínio sobre as transfusões de sangue, ou seja, colocar o sangue de uma pessoa em outra é o mesmo que se alimentar. (Qualquer notícia que a Sociedade encontrasse desfavorável ao transplante, publicava sem reservas). Disse a Torre de Vigia:
“Notar que a posição das testemunhas cristãs de Jeová — de que tais transplantes são efetivamente uma forma de canibalismo — provaram ser uma salvaguarda” (Despertai!, 08/01/73, p. 28).
Como sempre, a transferência de responsabilidade é o expediente padrão adotado. Uma opinião da Torre de Vigia é descrita como a opinião das Testemunhas de Jeová em geral. Faz-se ainda a arriscada afirmação que se abster de um transplante é sempre benéfico.
Depois que a Torre aprendeu que essa analogia (transplante-canibalismo) não é correta, abandonou essa posição, mas somente no que tange aos transplantes de órgãos sólidos, e embora o sangue também seja um órgão (líquido), a Sociedade o excluiu do novo critério adotado. É a velha prática de dois pesos e duas medidas.
No que diz respeito às vacinas, o rigor era ainda maior. Nas publicações mais antigas, entre 1920 e 1945, que não estão disponíveis no CD-ROM da Torre de Vigia, adotava-se uma posição altamente rigorosa sobre às vacinas, identificando-as com o Diabo e seus agentes. Publicações mais recentes também proibiam o uso de vacinas derivadas do sangue, que hoje são permitidas. – A Idade de Ouro, 1/05/29, p. 502; A Sentinela, 15/12/52; Despertai!, 08/04/70, p. 4; A Sentinela, 01/06/70, p. 347; A Sentinela, 01/03/76, p. 135.

Mais um exemplo revelador
Considere outra circunstância, a que envolve a bomba coração-pulmão. Num artigo da Sentinela, a Torre de Vigia proibiu explicitamente o recolhimento de sangue antes da operação para uma transfusão autóloga (ou seja, usando o próprio sangue do paciente), mas permitiu outro procedimento:
“Num processo um tanto diferente, o sangue autólogo pode ser desviado do paciente para um aparelho de hemodiálise (rim artificial), ou para uma bomba coração-pulmão. O sangue flui para fora através de um tubo até o órgão artificial que o bombeia e filtra (ou oxigena) e daí volta para o sistema circulatório do paciente. Alguns cristãos têm permitido isso, caso o equipamento não seja escorvado (posto a funcionar) com sangue estocado. Eles têm encarado a tubulação externa como uma extensão de seu sistema circulatório, de modo que o sangue possa passar através de um órgão artificial. Têm considerado o sangue nesse circuito fechado como ainda parte deles, não necessitando ser ‘derramado’.” (A Sentinela, 1/03/1989, p. 30). – note o velho jogo de palavras: “Alguns cristãos têm permitido isso...”, quando, na verdade, o que o escritor quer dizer é: “A Torre de Vigia tem permitido...”.
Não é difícil perceber que a lógica que permite a bomba coração-pulmão também permite que se armazene o próprio sangue, se fosse permitido estabelecer esse critério de julgamento. Afinal, o único argumento contra o armazenamento do sangue vem de uma regra na Lei de Moisés que dizia que o sangue de um animal que era morto fosse derramado no chão. (Deuteronômio 12:24). Conforme diz o mesmo comentarista mencionado anteriormente, “seguir a regra demonstrava que a pessoa entendia que a vida do animal provinha de Deus”. Portanto, é evidente que tais raciocínios baseados na Lei mosaica não se aplicam às transfusões de sangue autólogo, porque ninguém morre quando é feita uma transfusão deste tipo. O sangue é devolvido à pessoa da qual foi retirado.

Conclusão
As Escrituras são muito claras em afirmar que não se deve ir “além das coisas que estão escritas” (1 Coríntios 4:6). Todo esse conjunto de normas sobre qual fração sangüínea pode ou não pode ser usada, fere claramente o princípio citado por Paulo. A Bíblia não contempla esses detalhes, e ninguém está autorizado a fazer acréscimos às Escrituras. Além do mais, a proibição das Escrituras refere-se a usar o sangue como alimento, em respeito à vida que foi tirada para suprir a necessidade de nutrição de quem a tirou. Nenhum grupo de homens está autorizado a estabelecer regras proibitivas que só Deus seria capaz de fornecê-las, nem de afirmar presunçosamente que tais regras são orientações que descem da parte de Deus, pois Dele só desce “toda boa dádiva e todo presente perfeito”, e não orientações vacilantes que podem prejudicar a vida das pessoas. Cada cristão, mesmo um líder religioso, deve seguir o seguinte princípio: “Não pense mais de si mesmo do que é necessário pensar”. – Tiago 1:17; Romanos 12:3.
Portanto, leitor, o ensinamento da Sociedade Torre de Vigia dos EUA que tem tido maior notoriedade junto ao público externo, parece que precisa de uma séria revisão. É claro que muito do que a Torre de Vigia publicou sobre os perigos do sangue, e o abuso que alguns fazem dele, é basicamente correto (embora assim como há pessoas que morrem ao receber sangue, há muitas outras que sobrevivem). No entanto, essas ponderações não tem nada a ver com o preceito bíblico de se abster de sangue; apenas desvia a atenção do foco principal, a saber, que comer sangue não é o mesmo que uma transfusão, e que a proibição da Bíblia se refere a se alimentar do sangue de um animal que foi morto para servir de alimento.

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